
Antologia do Mar na Poesia Africana de Língua Portuguesa do Século XX –parte II
Manuel Correia da Silva – nasceu em Oliveira do Bairro, Portugal, em 1892. Concluiu seu curso superior em Angola, onde atuou como professor secundário, na cidade de Benguela. Destaca-se como um dos precursores das letras angolanas, participando como colaborador de Cultura (I), periódico artístico cultural, na década de 50. Principais obras: De longe (Versos d´Além-Mar) (1932); Cantares de Angola (1960).
FOCANDO (de avião)
Sereias do mar de Angola, mar luminoso,
tão lindo,
com reflexos de cristais
se a luz do sol se projecta
na água tranqüila
e quieta!
Sereias! – Que bem cantais
Daí-me tal inspiração que se traduza
em canção
sonora e não belicosa,
para cantar
a beleza,
as graças da natureza desta Angola portentosa!
Aves da selva africana, de feição
tão variada,
de plumagem multicor...
Ó lindas, canoras aves, cantando,
em coros suaves,
epitalâmios de amor!
Ó tardes mornas,
serenas,
como tardes de novenas, em que apetece rezar!
Tintas de cor que seduz, alagadinhas
de luz.
a cair por sobre o mar...
Ó voz da selva, entoando De Profundis
de saudades
dentro da mata sombria!
Ó murmúrio doce e brando, trazendo sons de Trindades
nas canções da ventania...
Ó rios de água de prata,
onde o luar se retrata, a diluir-se em brancura!
Ó campinas circundantes,
anharas tão verdejantes,
a dominar a planura...
Ó nuvens, lençóis franjados, de aspectos acastelados,
a limitar horizontes!
Ó trepadeiras bravias, a sair
das penedias.
pelas encostas dos montes...
Ó brisas,
a perpassar, em dúlcido sibilar,
que nos encanta e deleita!
O céu de anil, envolvente de graça surpreendente
desta Angola, Terra Eleita!
Desta Angola encantadora que nos fala,
a toda a hora,
das tradições do passado!
Bendita sejas, mil vezes, orgulho dos portugueses.
Salves, risonho Eldorado!
Antologia de Poesia Angolana, de Maria da Conceição.





