BEM-VINDO

Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira - Português para estrangeiro CARLOS ALTINO abdu_latifi@yahoo.com.br /

15 de setembro de 2008

LITERATURA HISPANO -AMERICANA - AV1

DISCIPLINA ON-LINE

LITERATURA
HISPANO-AMERICANA

AULAS DE 1 a 10

CURSO LETRAS

DIRETORIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

1/63

Edição, Produção Editorial e Projeto Gráfico

Diretoria de Educação a Distância

É proibida a duplicação ou reprodução deste material, ou parte
do mesmo, sob qualquer meio, sem autorização expressa da Universidade
Estácio de Sá.

Índice

Dicas para o seu Estudo On-line 03

Estrutura e Funcionamento 04

Introdução 05

Unidade 1 – Literatura da Conquista e Colonial: O Barroco
Hispano-americano 08

Aula 1: Literatura da conquista 08

Aula 2: O barroco hispano-americano 13

Unidade 2 – A expressão neoclássica – princípios estéticos eliteratura
de Independência. O Romantismo e o Realismo na América Hispânica 19

Aula 3: A poesia de Andrés Bello: agricultura de la zona tórrida 19

Aula 4: O Romantismo hispano-americano: A literatura “gauchesca”. O
movimento realista 22

Unidade 3 – O modernismo hispano-americano 31

Aula 5: Características estéticas: um encontro com José Martí e Rúben
Darío 31

Aula 6: A prosa Modernista: Rodó e Horacio Quiroga. Pós-Modernismo: a
poesia de Gabriela Mistral 39

Unidade 4 – Os movimentos de vanguarda – as poesias de Jorge Luis
Borges, Nicolás Guillén e Pablo Neruda 44

Aula 7: Os movimentos de vanguarda: as poesias de Jorge Luis Borges e
Nicolás Guillén 44

Aula 8: A poesia de Pablo Neruda 49

Unidade 5 – A nova narrativa Hispano-americana: a literatura fantástica
53

Aula 9: A nova narrativa hispano-americana. Tendências da narrativa
contemporânea na América Hispânica 53

2

Aula 10: O Estranho, o Maravilhoso e o Fantástico: Observando as
narrativas de Borges, García Márquez, Horacio Quiroga, Manuel Puig e
Carlos Fuentes 58

Considerações Finais 63

ATENÇÃO!

Esta apostila é uma reprodução do material constante no
ambiente virtual de aprendizagem de sua disciplina on-line. Por isso,
ela serve para fornecer o mesmo conteúdo do ambiente virtual de forma a
permitir que você possa estudar as aulas ainda que não possua acesso
on-line ao ambiente. Entretanto, isso não quer dizer que você não
precisará acessar a sua disciplina on-line no ambiente, mesmo que estude
pela apostila, pois diversas outras informações importantes estão lá,
como: a) exercícios de autocorreção; b) trabalhos a serem feitos; c)
biblioteca virtual – onde estão os textos para leitura e uma programação
(estudo dirigido) com data sobre os inícios de cada aula, eventos e
participações etc.

No ambiente virtual, ainda, você conta com o professor on-line.
Através do fórum, e também pela central de mensagem, você pode se
comunicar com o professor de sua turma.

3

DICAS PARA O SEU ESTUDO ON-LINE:

Presença

A sua presença é contabilizada pela realização das atividades de
autocorreção e não pelo número de horas acessadas. Assim, sua
participação é verificada de forma qualitativa e não quantitativa.

Fórum

Participe do fórum! Nele você vai debater e trocar informações e
conhecimento com seus colegas e professor sobre assuntos das aulas. Além
disso, é lá que o professor fará revisões para as AVs e dará dicas de
estudo!

Agendamento de Prova

O agendamento da avaliação é feito no Campus Virtual. Assim que
a ferramenta estiver disponível, todos os alunos serão avisados.
Portanto, não deixe para a última hora! Você pode agendar sua prova até
três dias antes do início das avaliações das disciplinas online.

Professor On-line

Tem alguma dúvida? Não entendeu aquele conceito complicado?
Envie um e-mail pela Central de Mensagens para o seu professor ou
coloque sua dúvida no Fórum de Discussão. Ele estará presente para lhe
responder e esclarecer sua questão.

Estudo Dirigido

Sua disciplina on-line possui um Estudo Dirigido com a
programação de todas as atividades. Você pode não saber o que fazer
hoje, mas o Estudo Dirigido sabe! Consulteo na Biblioteca da Disciplina.

Biblioteca

Não confunda Biblioteca Virtual com a Biblioteca da Disciplina
On-line! Enquanto a primeira fica no Campus Virtual e é utilizada por
algumas disciplinas presenciais, a segunda é exclusiva de sua disciplina
on-line. Na Biblioteca da Disciplina On-line você irá encontrar vários
textos complementares, arquivos em mp3 e também a apostila da
disciplina.

Trabalhos

Consulte sempre a ferramenta Trabalhos a Concluir. Nela você
deverá enviar anexados seus exercícios e deixar seus comentários no
campo Observações. Os trabalhos são muito importantes para a fixação do
seu aprendizado e são complementares à sua avaliação.

Atendimento

Para mais informações e esclarecimento, entre em contato com
nossa Central de Atendimento pelo tel.: (21) 3231-0000 ou pelo nosso
Fale Conosco, disponível em http://www.estacio.br/fale.asp.

4

Estrutura e Funcionamento

5

Curso: Letras

Disciplina: Literatura Hispano-Americana


Introdução

"O grande tema da literatura não mais é a aventura do homem que se lança
à conquista do mundo externo, senão a aventura do homem que explora os
abismos e covas de sua própria alma"

(conforme Ernesto Sábato, escritor argentino, em O escritor e seus
fantasmas).

6

No hay odio de razas porque no hay razas

El mundo es um tiemplo hermoso, donde caben en paz todos los hombres de
la tierra.

Quién escribió esto Tú lo conoces? Entonces, ven conmigo...

El decir poético dice lo indecible. La recitación poética es una fiesta:
una comunión. Freud descubrió que no bastaba ignorar la vida
inconsciente para hacerla desaparecer. (Octavio Paz - Escritor mexicano-
Prêmio Nobel de Literatura em 1990, p.112 a 117, El arco y la lira).

Lo que es Literatura Hispanoamericana? Esta é uma das primeiras
perguntas feitas pelo aluno de Letras. Vamos conhecer a produção da
literatura dos 21 países de fala espanhola de nossa América. Citamos que
dentro do continente americano, antes habitado pelas civilizações maia,
asteca e inca, e os nossos indígenas brasileiros, há uma infinidade de
escritores traduzidos para mais de 25 idiomas, recebedores de prêmios
internacionais importantíssimos.

Você terá oportunidade de conhecer escritores como Gabriel
García Márquez (autor de Cem anos de Solidão), Nicolas Guillén (poeta
cubano, Prêmio Nobel da Paz) e o poeta chileno, Pablo Neruda (Prêmio
Nobel de Literatura), que chamou o Brasil de “cristal verde da América”.
Assim, você vai entrar em contato com a literatura “Fantástica” de Jorge
Luis Borges e Julio Cortázar, com o realismo mágico, com o estranhamento
produzido pelo contato com textos que nos falam do “outro” que está
dentro de cada um de nós...

Características marcantes na escritura desses autores.

Vamos lá? Eu convido você a entrar no universo literário de
língua espanhola. Vamos comigo viajar pelo mundo literário de nosso
continente, o continente americano. Você tem, ao menos, dois modos que
se completam para conhecer fatos relevantes da cultura hispânica, desde
suas origens até a atualidade: a história e a literatura. Assim, esta é
uma disciplina que quer lhe dar um conhecimento que vai desde os
escritos précolombianos (antes de Cristóvão Colombo) até os dias de
hoje.

É preciso que você não esqueça que o governo federal já
estabeleceu a obrigatoriedade do ensino do Espanhol nas escolas. Então,
tudo que diga respeito a esta língua, é importante que o estudante de
Letras conheça. O encontro com esta literatura será, para você, um
desafio ao entendimento da língua espanhola, já que leremos muitos
textos escritos na língua original do autor.

7

Então, esta disciplina lhe dá possibilidade de encontrar-se com
a língua espanhola e de ter uma visão crítica das particularidades
históricas e culturais da América, através do estudo de textos
literários mais representativos. É uma disciplina que proporciona a você
um panorama crítico-literário da América desde as origens até a
atualidade, desde sua perda de identidade (no momento da conquista
espanhola) até seu reencontro consigo, no despertar de escritores,
pensadores, homens políticos e poetas comprometidos com o social e as
gentes de seus países

Esta disciplina será distribuída em cinco unidades:

Unidade 1: Literatura da Conquista. Literatura Colonial: o Barroco
Hispano-americano

Unidade 2: A Expressão Neoclássica – Princípios Estéticos e Literatura
de Independência. O Romantismo e o Realismo na América Hispânica

Unidade 3: O Modernismo Hispano-Americano (Literatura Nacional)

Unidade 4: A Nova Narrativa Hispano-Americana: Conceituação da
Literatura Fantástica. O Realismo Mágico

Unidade 5: Estudo e Leitura de Carlos Fuentes

8

Unidade 1
Literatura da Conquista e Colonial: O Barroco
Hispano-americano

Neste primeiro momento, vamos observar como se deu a chegada dos
espanhóis à América, em 1492, e refletir sobre o resultado encontrado
entre civilizações tão diferentes. Em um segundo momento desta unidade,
leremos alguns trechos da produção colonial, quando os espanhóis já se
haviam instalado na América.

Aula 1
Literatura da conquista

9

O plano do famoso navegador, que foi apoiado pelos reis, era
diferente do plano utilizado pelos portugueses. Ele viajaria seguindo a
oeste pelos mares, pois estava convencido de que a Terra era redonda.
Levando isso em conta, viajando em linha reta, chegaria mais rapidamente
a seu destino: as Índias, onde encontraria grandes civilizações ainda
desconhecidas pelos portugueses.

Colombo afirmava que, fazendo este percurso, ele encontraria
sociedades ricas em metais preciosos e pedrarias. Sendo assim, sua
viagem prometia um retorno financeiro muito elevado para a Coroa
Espanhola. Os reis espanhóis aceitaram a proposta de expedição marítima
comandada pelo navegador italiano. Em 3 de agosto de 1492, Colombo saiu
da Espanha com três caravelas.

Em 12 de outubro de 1492, depois de ter navegado por mais de
dois meses, a expedição chegou a uma terra desconhecida, aportando em
uma pequena ilha da América Central, denominada por ele de San Salvador.
A gravura representa a descoberta da América.

Ao retornar à Espanha, recebeu uma premiação por sua descoberta
e realizou mais três viagens à América, mas sempre pensando que se
tratava da Índia. Colombo, nestas viagens, visitou outras ilhas próximas
a que encontrou, mas não avançou terra adentro.

Por conta disso, não travou contato com as grandes civilizações
que acreditava que existiam – Maias, Astecas e Incas – e também não
retornou para a Espanha com a quantidade de ouro que havia prometido.
Foi então destituído do cargo e outros navegadores foram indicados para
dar continuidade a seu trabalho (clique nos navegadores para saber
mais):

-Hernán Cortés1


-Américo Vespúcio2

10

Traje típico dos índios astecas

O novo continente encontrado estava habitado por sociedades
indígenas, consideradas “altas culturas”. Representadas por Maias,
Astecas e Incas, este mundo indígena era complexo, variado e rico,
constituído por sociedades hierarquicamente organizadas, que construíram
magníficas cidades cuja riqueza provocou o deslumbre, o espanto e, é
claro, a cobiça dos europeus. Na foto, A Literatura Hispano-americana
tem início como um capítulo colonial da Coroa Espanhola. O descobrimento
e a conquista da América, sua terra e seus habitantes começam a serem
descritos. Tais relatos chegam até a corte espanhola por meio de
crônicas, viagens, documentos históricos ou eclesiásticos. Os relatos
por meio dos quais o cotidiano da colônia era relatado à corte espanhola
são conhecido como “Crônicas do descobrimento” ou “Crônicas da
conquista”.

São vários os cronistas instituídos por mandato real. Suas
narrativas e descrições são consideradas relatos oficiais deste período
de conquista e colonização da América, além, é claro, de serem textos
literários. Podemos elencar alguns tipos de cronista (clique em cada
tipo para saber mais):

1 Hernán Cortés viajou terra adentro e encontrou o que Colombo teorizou:
a civilização Asteca, com toda sua opulência e riqueza, sediada pela
cidade de Tenochtitlán.

2 Américo Vespúcio, posteriormente, realizou também viagens à América e
percebeu que o “Novo Mundo” encontrado não era a Índia, mas sim uma nova
e grande extensão de terra que recebeu, em sua homenagem, o nome de
América.

11

a) cronista conquistador;3

b) cronista soldado;4

c) cronista missionário;5

d) cronista mestiço.6

3 CRISTÓVÃO COLOMBO (1451/1506 – Cristóvan Colón) Consta que o primeiro
documento que se refere de modo concreto à América são as cinco Cartas
de Colombo. Sabe-se que essas cartas são cinco, mas só quatro chegaram
ao conhecimento público. Não se conhece o motivo do extravio da quinta
carta.

A primeira e a quarta são consideradas as mais importantes. A
primeira, por dar conta do descobrimento, pela novidade de revelar o
“Novo Mundo” à Europa. Esse mundo era apresentado como um paraíso, dada
sua beleza e a fartura da terra. Ainda que não seja especificamente
literária, a primeira carta já aponta para a idéia do “bom selvagem”.
Quanto à quarta carta, sua importância está no fato de refletir os
sentimentos do descobridor em toda sua complexidade, sobretudo seu lado
visionário.

HERNÁN CORTÉS (1485/1547)

As Cartas de Cortés são em tom ameno e destacam-se por seu
entusiasmo diante das grandes civilizações indígenas encontradas e de
sua riqueza material. Entretanto, suas crônicas merecem destaque tanto
por sua bravura como por sua visão política. Cortés foi um homem típico
do Renascimento europeu, com igual aptidão para as armas e para a vida
literária. Foi nomeado como “algo poeta”. Em 1518, lhe foi conferido o
poder da expedição ao México, cujas conquista e reorganização
sociopolítica foram direcionadas por suas mãos. Escreveu cinco
“Cartas-relaciones” (Crônicas) que, de estilo conciso e elegante,
revelam sua surpresa diante do esplendor de tal civilização.

4 É sóbrio e despreza a cultura livresca. Suas narrações são, em geral,
resumidas e breves. Percebe-se em seus escritos a tentativa de diminuir
a crueldade e os vexames do conquistador em relação aos indígenas.

5 A conquista da América de forma definitiva, com o estabelecimento dos
vice-reinados e das capitanias hereditárias, foi seguida pela conquista
espiritual da igreja católica daquela época. Os missionários também
procederam à evangelização destes povos por meio da tarefa de ensinar a
nova língua aos índios. Foram vários os grupos missionários que se
revezaram no “Novo Mundo” durante as décadas da colonização. Do encontro
entre índios e missionários, resultam dois fatos culturais importantes:

a) a reconstrução histórica do passado indígena, com seus ritos,
costumes, escritos literários – como, por exemplo, o livro El popol-Vuh,
considerado a bíblia do povo maia-quiché;

b) a busca pela reforma social, feita pelas denúncias dos padres em
razão dos maus tratos sofridos pelos indígenas.

Tais relações históricas e as denúncias foram feitas em crônicas
enviadas à coroa espanhola. Nessas denúncias dos massacres, destaca-se
especialmente o padre Bartolomé de las Casas (1474/1566), cuja principal
obra, Brevísima relación de la destrucción de las Índias, resultou em
uma busca de revisão, por parte do rei Carlos V, em 1542, do tratamento
dado aos nativos. Observe bem: os colonizadores chegaram à América em
1492. Quando as revisões das leis ocorrem, em 1546, com a expedição do
documento “Declaração dos direitos dos indígenas”, conseguido por Las
Casas, grande parte das cidades e das populações indígenas já tinha sido
destruída, massacrada.

6 A figura máxima do período da crônica colonial é o mestiço Garcilazo
de la Vega (1539/1616), apelidado de “El Inca”. Filho de princesa Inca e
de um militar espanhol, tinha descendência nobre e refletia a fusão
destas duas culturas no livro Los Comentarios Reales. A obra, cheia de
emoção e ternura, revelara seu sentimento pela pátria. Embora a essência
da obra seja a fantasia, é também memorialista e por isso ressalta seus
problemas mais íntimos: a tensão entre as duas culturas de origem (ora
faz a defesa da nobreza incaica, ora apresenta honra aos conquistadores
espanhóis).

Para complementar o que abordamos nesta aula, sugerimos que você
assista ao filme “1492: a conquista do paraíso”, com Gerárd Depardieu e
Sigourney Weaver. Esse filme,

12

dirigido por Ridley Scott, é uma excelente opção para visualizar quase
todo o conteúdo desta aula. Não perca esta oportunidade! Consulte ainda
os seguintes endereços:

??www.cuatrocabezas.com.ar – endereço sobre filmes espanhóis e
hispanoamericanos;
??www.uni-mainz.de/~lustig/texte/antologia/antologi.htm – antologia de
textos da época da conquista espanhola e da colônia – Fray Bartolomé de
las Casas, Garcilazo de la Vega, Sor Juana Inés de la Cruz...

??http://ensayo.rom.uga.edu/antologia/XV/colon – carta de Colombo
anunciando o descobrimento;

??http://www.yucatan.com.mx/mayas/mapamay.htm – site que oferece um mapa
no qual é possível selecionar sítios arqueológicos e históricos a
explorar e apresenta importantes informações culturais, históricas e
turísticas;

??http://www.ub.es/hvirt/index/ – história virtual da América por meio
de textos, imagens e exposições.

Leituras Importantes:

Acesse a Biblioteca da Disciplina , seção Material de Aula, e
leia o texto Trechos das Principais Crônicas da Literatura de Conquista.
É preciso que você leia também a “Introdução” (p.13-19), o 1º Capítulo
“Literatura de Aculturação” (p. 21-34) e o 2º, o “Barroco” (p.35-56), da
Professora Bella Jozef (História da literatura hispano-americana. Rio de
Janeiro: Francisco Alves, 1986). Não deixe de localizar o livro para que
seja feita a leitura, pois esta obra é considerada a “bíblia” desta
disciplina.

Antes de passar para a próxima etapa, realize os exercícios de
autocorreção desta aula. Lembre-se de que sua freqüência está associada
à realização desses exercícios. Atividade para ser realizada no ambiente
on-line: Participe do Fórum de Discussão , nos tópicos Ambientação,
Integração do grupo e Apresentação da Disciplina. Além disso, haverá um
tópico para Tema 1, que valerá para as Aulas 1 a 5.

Nesta aula, você:

Conheceu um pouco mais sobre as navegações que culminar com o
descobrimento da América;

Verificou a problemática da relação que nasce entre as culturas
indígenas e européias;

Conheceu o papel dos cronistas na época colonial: serem relatores
oficiais do cotidiano da colônia;

Tomou ciência da importância e da influência das culturas
pré-colombianas.

13

Nossa América é, sem dúvida, a crônica. Ela resume o espírito de
espanhóis e índios, e traduz o choque de ambas as raças e culturas. No
cenário da natureza americana, nova e desconcertante, dada sua beleza e
majestuosidade para o conquistador, a crônica – não obstante sua
ascendência espanhola – é o primeiro gênero escrito na América depois da
chegada do conquistador.

Aula 2
O barroco hispano-americano

O século XVI é considerado decisivo para a Hispano-América, pois
a transformação causada pela conquista e pela colonização, fez cair
impérios e fez nascer novas sociedades, passando a América a estar
vinculada à Europa por valores econômicos, políticos e culturais.

14

Os padres foram os primeiros mestres da educação no Novo Mundo.
Ao mesmo tempo em que catequizavam os índios, ensinavam a língua
espanhola e os instruíam nas mais variadas práticas de conhecimentos,
como pintura, escultura, ofícios mecânicos etc. Surge, nesta época, um
problema com o qual esta nova sociedade em formação – que não é mais
asteca, inca, maia ou espanhola, mas a mescla das quatro – terá de
conviver: o fazer artístico deve seguir os modelos europeus. Nessa
época, a arte produzida na América, para que fosse aceita pela
metrópole, tinha de seguir os grandes nomes da poesia e do teatro
espanhol, como, por exemplo, os cânones Lópe de Vega, Calderón de la
Barca e Tirso de Molina.7

“A América nasceu Barroca”, escreveu Luiz Alberto Sánchez,
“retorcida, sobrecarregada de rodeios”. O autor também adverte que a
arte incaica encontrada pelos colonizadores ostentava motivos
ornamentais crispados e curvas angustiantes – bem semelhantes à arte
produzida na Europa do mesmo período.

A obra mais considerável do estilo Barroco na América é a da
mexicana Sór Juana Inés de la Cruz (1648/1695)8 Considerada
representante máxima na poesia em terras hispânicas, Sóror – ou Sór –
Juana, de obra intelectualista, é uma das escritoras mais pessoais da
literatura colonial. Suas poesias deleitam-se no humano, tendo como
temática principal o amor, analisando suas complicações, seus efeitos,
suas causas, as circunstâncias que o afetam. Escreveu com liberdade e
sua expressão alcançou o ponto mais alto e nobre que a literatura da
época impunha.

7 Tirso de Molina é autor de El burlador de Sevilla , um clássico da
literatura espanhola, e também de um mito muito popular, do qual
certamente já ouvimos falar: “o mito de Dom Ruan”. O homem conquistador,
personagem principal da referida obra, é um enganador de mulheres, que
não mede esforços para aproveitarse delas.

8 Aos 16 anos, Sor Juana Inés de la Cruz fez pasmar por sua cultura e
erudição. Jovem, elegante e dominando vários instrumentos musicais, foi
solicitada como dama de companhia da Vice-Rainha e viveu por dois anos
na corte. Aprendeu a ler aos três anos. Aos sete, queria ser disfarçada
de homem para freqüentar a Universidade.

15

Claro que sua mãe não aceitou isto. Por não ter como freqüentar a
universidade, leu toda a biblioteca de seu avô. Jovem, bela, de rosto
oval e cabeleira negra, era linda por dentro, recheada de poesia, música
e toda uma gama de noções científicas. Era muito admirada e também muito
respeitada por conta de sua sabedoria. Em 1667, decide ser freira. Até
hoje teóricos e pesquisadores se perguntam o porquê. Terá ela amado sem
ser correspondida? O que a influenciou na decisão de tornar-se
religiosa? Segundo seus próprios escritos, afirma ter sido por total
negação à vida mundana, o que fica em desacordo com a principal temática
de sua escrita: o amor.

Poemas de Sóror Juana Inés de la Cruz.

a) Exemplo de soneto

I

Procura desmentir los elogios que a un retrato de la poetisa inscribió
la verdad, que llama pasión

Este que ves, engaño colorido,
que del arte ostentando los primores,
con falsos silogismos de colores
es cautelosos engaño del sentido.
Este en quien la lisonja ha pretendido
excusar de los años los horrores
y venciendo del tiempo los rigores
triunfar de la vejez y del olvido:
es un vano artificio del cuidado;
es una flor al viento delicada;
es un resguardo inútil para el hado;
Es una necia diligencia errada;
es un afán caduco; y bien mirado,
es cadáver, el polvo, es sombra, es nada.

II

Quéjase de la muerte: insinúa su aversión a los vicios y justifica su
divertimiento a las musas

En perseguirme, mundo, que te interesas?
En qué te ofendo, cuando sólo intento
poner bellezas en mi entendimiento
y no entendimiento en las bellezas?
Yo no estimo tesoros ni riquezas,
y así, siempre me causa más contento
poner riquezas en mi entendimiento
que no mi entendimiento en las riquezas.
Yo no estimo hermosura que vencida
es despojo civil de las edades
n i riqueza me agrada fementida.
Teniendo por mejor en mis verdades
consumir vanidades de la vida
que consumir la vida en vanidades.
b) Frangmento de redondilla
En que describe racionalmente los efectos irracionales del Amor
16
Este amoroso tormento
que en mi corazón se ve
sé lo que siento, y no sé
la causa porque lo siento.
Siento una grave agonía
por lograr un devaneo,
que empieza como deseo
y para como melancolía.
Y cuando con más terneza
mi infeliz estado lloro,
sé que estoy triste e ignoro
la causa de mi tristeza.
Siento un anhelo tirano
por la ocasión a que aspiro,
y cuando cerca la miro
yo misma aparto la mano.
Porque, si acaso si ofrece,
después de tanto desvelo,
la desazona el recelo
o el susto la desvanece.
Y si alguna vez sin susto
consigo tal posesión
cualquiera leve ocasión
me malogra todo el gusto.
Siento mal del mismo bien
con receloso temor.
y me obliga el mismo amor
tal vez a mostrar desdén.
Cualquier leve ocasión labra
en mi pecho, de manera,
que el que imposible venciera
se irrita de una palabra.
Con poca causa ofendida,
suelo, en mitad de mi amor,
negar un leve favor
a quien le diera la vida.
Ya sufrida, ya irritada,
con contrarias penas lucho:
que por él sufriré mucho
y con el sufriré nada.
No sé en que lógica cabe
el que tal cuestión se pruebe:
que por el lo grave es leve,
y con él lo leve es grave.

A escrita de Sór Juana Inés de la Cruz parte de um sentimento de
ansiedade, chegando a uma veemência temperamental que normalmente se
finaliza, na poesia, com um resignado equilíbrio. A angústia humana, a
dualidade, a dúvida entre o ser e o parecer são algumas das
características mais marcantes da estética barroca a que sua obra
pertence.

El sueño – chamado também de Primer sueño –, com aproximadamente
609 versos, um extenso poema, é o único que, segundo confissão pessoal,
escreveu de próprio gosto. Sór Juana afirma que seus outros belos poemas
de amor foram sempre escritos a pedido de reis, príncipes ou duques, às
vezes em louvor de alguma dama.

17

Para complementar o que abordamos nesta aula, sugerimos que você
acesse os seguintes endereços:

??www.eticaefilosofia.ufjf.br/7_2_irineide.html

??www.dartmouth.edu/~sorjuana/Commentaries/Pelayo/MPELAYO1.HTM

??www.dartmouth.edu/~sorjuana/Commentaries/Villaurrutia/Villaurrutia.htm
l

??www.dartmouth.edu/~sorjuana/Commentaries/Vossler/Vossler.html

??http://galeon.com/sorjuana/rebeldia.htm

??www.geocities.com/Paris/LeftBank/2238/juana.htm

??www.vidaslusofonas.pt/sor_de_la_cruz.htm

??www.mexicodesconocido.com.mx/fiestas/fiestas.htm

O Barroco hispano-americano segue os moldes da produção
européia: ao serem estabelecidas as novas cidades, fica proibida a
circulação de obras de imaginação. Sendo assim, fica proibido também o
intercâmbio entre as partes da América. Nesta época, destacam-se dois
tipos de produção literária hispânica: o teatro e a poesia.

O teatro americano não é exclusivamente “teatro espanhol”
produzido e realizado em terras hispânicas. Ao modelo herdado da Europa
serão acrescentados fatores que lhe imprimirão caráter próprio e
diferenciado. Um dos mais importantes é o substrato indígena, com suas
danças e ritos bem peculiares. Percebe-se uma nova América nestes
escritos literários, unida por um novo credo e uma nova língua – a
espanhola.

18

Um dos maiores representantes do teatro “criollo” é o escritor
mexicano Juan Ruiz de Alarcón y Mendonza (1580-1639). Filho de nobres
espanhóis, este escritor cria, com a peça La verdad sospechosa, a
comédia de caráter. Sua escrita revela uma nova consciência artística,
urdindo comédias variadas, nas quais já se nota um afastamento dos
cânones espanhóis implantados por Lope de Vega.

Com Alarcón, a América deixa de somente receber influências
literárias e passa também a influenciar a Europa. Este autor foi
considerado por Manuel Bandeira a maior vocação teatral da América
hispânica de sua época. A obra para o teatro, produzida na América,
passa a ter, então, características e notas pessoais bem peculiares do
autor que a escreve.

Para complementar o que abordamos nesta aula, sugerimos que você
acesse o seguinte endereço:
www.uni-mainz.de/~lustig/texte/antologia/antologi.htm.

19

Unidade 2

A expressão neoclássica – princípios estéticos e
literatura de Independência. O Romantismo e o
Realismo na América Hispânica

Nesta unidade veremos as estéticas do Neoclassicismo, Realismo e
Romantismo na América Hispânica.

O período Neoclássico no mundo literário (séc. XVIII) é
conhecido como o “século das luzes”. É uma era de progresso econômico e
científico que encontra acolhida nas terras hispânicas e vai de encontro
às expectativas do escritor Andrés Bello para a produção literária na
América hispânica.

Aula 3

A poesia de Andrés Bello: agricultura de la zona tórrida

20

O século XVIII é o momento em que se multiplicam os jornais e o
saber circula e se difunde pelo mundo – e, conseqüentemente, pela
América. A estética do Neoclassicismo tem a razão como qualidade
fundamental do homem. Sendo assim, a verdade, o natural, é o ideal de
beleza minuciosamente observado. Andrés Bello, aproveitando a força
desta época, chama os povos hispânicos por meio de sua escrita jurídica
e poética para a exaltação da vida rural, do homem e da natureza
americana como um todo.

Na geração hispano-americana que fez a independência da América,
nenhum nome literário se sobrepõe ao de Andrés Bello (1781-1865). Poeta
erudito e homem de ação social, Bello exerceu imensa influência na
cultura sul-americana do século XIX. A unidade lingüística da América
espanhola tornou-se uma de suas metas. Sua Gramática de la lengua
castellana (1847) é ainda hoje fundamental para estudos lingüísticos
históricos. Andrés Bello foi, sem dúvida, o precursor na interpretação
da natureza americana. Publicou os livros de poemas Silvas americanas e
Silva a la agricultura de la zona tórrida (1826), de exaltação à
natureza americana.

Literária e politicamente conservador, pretendeu renovar as
letras americanas usando formas clássicas latinas. Seu objetivo era
formar uma consciência cultural americana fundamentada na autonomia
política e intelectual.

Andrés Bello acreditava que sua literatura alcançaria
características próprias. Não através de um “indigenismo” ou de uma
volta ao passado, mas assimilando os valores positivos da civilização
contemporânea. Foi ele, no seu tempo, considerado o homem de maior
cultura no Novo Mundo. Seus poemas são um convite ao cultivo do solo,
são a exaltação do homem e da natureza hispano-americana apresentados em
sua mais alta categoria.

Leia uma poesia de Andrés Bello.

Agricultura de la zona tórrida, que conta com 373 versos,
pertence ao período neoclássico, mas já é um prenúncio do Romantismo em
virtude do sentimento de paixão nacional que apresenta. Neste poema,
Andrés Bello projeta seu sentimento sobre a paisagem nacional. O homem e
a natureza são apresentados em sua mais alta categoria. A escrita da
poesia é um convite ao leitor para que valorize e cuide, honre e cante a
natureza americana.

Abaixo, um trecho do poema:

Agricultura de la zona tórrida

21

¡Salve fecunda zona,
que al sol enamorado circunscribes
el vago curso, y cuanto ser se anima
en cada vario clima,
acariciada de su luz, concibes!
Tú dejes al verano su guirnalda
de granadas espigas; tú la uva
das a la hirviente cuba,
no de purpúrea fruta, roja o gualda,
a tus florestas bellas
falta matiz alguno; y bebe en ellas
aromas mil el viento;
y greyes van sin cuento
paciendo tu verdura, desde el llano
que tiene por lindero el horizonte,
hasta el erguido monte,
de inaccesible nieve siempre cano.

Esta poesia seria um fragmento de um outro, chamado América.
Deste, publicou outro fragmento, que chamou de Alocución a la poesia.

Para complementar o que abordamos nesta aula, sugerimos que você
acesse os seguintes endereços:

www.andresbello.org/

www.librochile.cl/andresbello

22

Aula 4

O Romantismo hispano-americano: A literatura “gauchesca”. O movimento
realista

O Romantismo se inicia na América após 1830, em uma época das
lutas pelas independências e proclamações de República. Neste período
tormentoso, liquida-se a tutela espanhola, mas não ainda o espírito e os
interesses que esta representava. A história literária da América sofre
o impacto desses acontecimentos. O pensamento estético aplica-se à
realidade social, pois os escritores foram homens de ação. Neste
momento, destaca-se a formação da “Literatura Gauchesca”, própria do
movimento romântico hispânico, que observará a temática campesina versus
a citadina, representadas pelas obras de escritores como José Hernández
(Martín Fierro) e Domingo Faustino Sarmiento (Facundo), respectivamente.

23

A atmosfera romântica que se alastrou na metade do século XIX
foi captada também por escritores Hispano-americanos. O Romantismo
hispanoamericano vai corroborar para a formação das novas nações, das
novas repúblicas. Como nos movimentos anteriores dentro da América, este
pensamento estético aplica-se à realidade social: os escritores
hispânicos foram homens de ação.

Podemos citar Andrés Bello como exemplo de homem de ação.
Conforme visto em aula anterior, ele usou sua escrita em prol da
libertação dos povos da América e da formação das novas repúblicas.
Também são exemplos aqueles que, além da escrita, estiveram também à
frente das batalhas emancipadoras.

Neste momento da História e da literatura hispânicas, não
podemos deixar de mencionar a importância do grande libertador da
América, Simon Bolívar (Venezuela- 1783/1830). Sua importância, além de
político-econômica, faz-se também por suas qualidades literárias.

Diferentemente do sentimento coletivista neoclassicista, o romântico
vive envolto em sentimentos de melancolia e individualismo exasperado.
Se no neoclassicismo Hispanoamericano a idéia era formar uma única
consciência cultural americana, no romantismo nasce o sentimento da
preponderância do “eu”. Por outro lado, este movimento estético acelera
a criação de uma literatura autóctone, que buscava inspiração na própria
terra americana.

A “literatura gauchesca” vai ter como “herói” o cidadão natural
da terra, trabalhador dos pampas, das planícies americanas. Homem viril,
forte e valente, que foi solicitado durante as lutas pelas
independências das regiões da América, guerreando nas revoluções para a
formação das novas repúblicas. Entretanto, quando estas repúblicas se
estabelecem, quando as independências ocorrem e as novas nações já são
realidades, aquele homem tão importante nas frentes das batalhas
emancipadoras deixa de ter valor.

24

Temos, nesta foto, uma representação “del gaucho argentino”,
homem trabalhador dos pampas, que lida com os animais, com o gado, muito
semelhante ao nosso gaúcho do sul do Brasil. Foi um herói nacional.

As nações hispano-americanas encontram no movimento romântico a
primeira oportunidade de expressão autêntica de seu temperamento. É
neste movimento que os escritores descobrem as singularidades de suas
paisagens e de sua história, de suas gentes e de seus problemas sociais.
Na imagem acima temos uma representação do poeta argentino José
Hernández.

O Romantismo se inicia na América após 1830. O percurso
hispano-americano é marcado por uma série de lutas pelo poder entre os
chefes revolucionários, revelando-se uma época tormentosa. Dentro destas
lutas teremos os nomes de homens de letras, que foram desde os inícios
homens de ação, como já vimos anteriormente. Esses homens eram tanto
envolvidos com a vida política de suas repúblicas quanto escritores
literários. Liquida-se, neste período, a tutela espanhola com as
revoluções e independências, mas ainda não o espírito e os interesses
que representava. Dessa forma, teremos pelo menos três nomes de
destaque, que conduzirão o povo rumo à emancipação literária hispânica,
almejada anteriormente por Andrés Bello. Esses nomes estarão diretamente
ligados ao que chamam os teóricos de “literatura gauchesca”:

a) Estéban Echeverría (Argentina – 1805/1851);

25

b) José Hernández (Argentina – 1834/1894);

c) Domingo Faustino Sarmiento (Argentina – 1811/1888).

Com estes escritores, a literatura hispano-americana apresenta
como características específicas uma constante relação entre política,
história e ficção. É comum que os teóricos dividam a expressão romântica
na América em dois períodos:

1ª. geração – poesia romântica, de 1810 a 1837;

2ª. geração da poesia romântica, na segunda metade do século XIX.

A primeira geração da poesia romântica caracteriza-se por
movimentos de revolução, independência e organização política que se
concluem com a formação das novas repúblicas. Destaca-se, neste período,
o escritor Estéban Echeverría (Argentina- 1805/1851), considerado
iniciador da estética romântica em terras da América. Sua estética era
nacionalista, mas desenvolvia uma atitude aberta diante do mundo.
Concebia a idéia de uma literatura nacional e a inicia, tornando o pampa
um lugar comum na literatura, embora o tipo do “gaúcho” ainda não
apareça em sua obra romântica.

Como poeta, foi considerado um versificador fraco. Entretanto,
apesar de suas falhas apontadas por estudiosos, é um escritor visto como
iniciador de nova estética, sendo teorizador e formador de uma escola
literária na América. Foi o homem que nacionalizou o movimento
romântico, empregando categoria viva e nacional aos pampas argentinos. A
Estéban Echeverría é atribuída também a iniciação do movimento realista,
com o conto El matadero.

Embora tenha sido escrito no período chamado romântico e nem
tenha sido publicado em vida pelo autor, foi publicado por amigos e
seguidores seus em 1871 e reflete de modo contundente a busca pelo
escritor de características argentinas. Essa procura de identificar a
Argentina dentro da história contada marca o início do Realismo na
América.

26

Escrito no período da ditadura de Juan Manuel Rosas, esta narrativa é
considerada o primeiro conto da América Hispânica. El matadero narra um
episódio brutal e sangrento, descrito com admirável vigor e audácia
realista.

Para complementar o que abordamos nesta aula, sugerimos que você
acesse os seguintes endereços:

??http://www.urutagua.uem.br//006/06fioruccii.htm – neste site você tem
acesso ao artigo “O conto Hispano-americano: relação entre história e
literatura em El matadero”, de Rodolfo Fiorucci, que está salvo em pdf
que pode ser impresso

??www.bestiario.com.br/11html – nesta revista eletrônica de contos,
basta clicar sobre o conto “El matadero” para lê-lo na íntegra

??www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=53

??http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4700775J4
&t ipo=completo

Aproveite a leitura do conto e faça um fichamento em português,
de sua leitura. Isto vai auxiliá-lo a compreender o caminho de
independência política e cultural que faz a literatura
Hispano-Americana, além de observar o aspecto histórico presente no
conto. Será fácil? Não. Este texto está em espanhol. É um novo desafio
para você. Mas é claro que você está cursando uma universidade porque
gosta de desafios. Então, não tente traduzir o texto, palavra por
palavra. Faça o que nós fazemos quando lemos um texto em português:
entendemos o texto no seu todo.

Na Argentina dos anos de 1810, no movimento Romântico, temos o
destaque da “produção literária gauchesca”, que trabalha com a temática
do “homem citadino” e do

27

“homem campesino”. Dessa forma, surgem poemas populares, escritos por
homens cultos, da cidade, mas que assumem a fala do homem simples, do
trabalhador rural. Foi José Hernández (Argentina- 1834/1886) quem deu
destaque ao gênero, com o poema Martín Fierro, que compreende todo um
livro. É a história em versos de um gaúcho que se chama Martín Fierro. O
livro, devido a seu êxito e sua aceitação, foi escrito em duas partes –
Martín Fierro (1872) e La vuelta de Martín Fierro (1879). As duas partes
resumem um protesto contra a industrialização em progresso na Argentina,
que, aos poucos elimina da sociedade a presença do “gaúcho”. Por mais de
20 anos, este livro foi o preferido das campanhas que envolviam as
discussões argentinas sobre a condição do homem gaúcho.

O personagem, principal era um gaúcho feliz, mas a ida para a
guerra, para a luta pela independência, transforma toda sua vida,
convertendo-o, de homem terno e sensível, em homem esmagado,
marginalizado por uma sociedade dirigida por homens corrompidos, que não
tem mais como absorver este trabalhador. Mas Martín Fierro é, sobretudo,
uma narração em versos épica, um drama lírico, um estudo que quer
representar a linguagem popular e os costumes do homem gaúcho (ou
“gaucho”). E mais ainda: quer reivindicar os direitos sociais deste
homem e fazer valer a importância da cultura popular argentina.

Leia um trecho de Martin Fierro, de José Hernández.

Canto I

Aqui me ponho a cantar
Ao compasso da viola,
Que o homem que se desola
Numa dor extraordinária,
Como ave solitária
Cantando é que se consola.
Eu peço aos santos do céu
Que amparem meu pensamento;
Peço que neste momento
Em que conto a minha história,
Me refresquem a memória
E aclarem o entendimento.
Venham santos milagrosos,
Venham todos dar-me ajuda,
Que a minha língua se gruda
E turva já tenho a vista;
Peço ao Senhor que me assista

28

Nesta ária tartamuda.
Eu já vi muitos cantores
Com fama bem construída,
E que uma vez adquirida
Não puderam sustentar:
Como se antes de largar
Já cansassem da partida.
Onde outro paisano passa
Martin Fierro há de passar,
Nada o fará recuar,
Nem os fantasmas o espantam;
E uma vez que todos cantam
Eu também quero cantar.
Cantando quero morrer,
Cantando me hão de enterrar,
E cantando hei de chegar
Ao lado do Padre Eterno,
Pois desde o ventre materno
Vivi no mundo a cantar.
Que não se me prenda a língua
e nem me falte a palavra;
A glória a cantar me lavra,
E se me ponho a cantar
Cantando me hão de encontrar
Ainda que o chão se abra.
Eu não sou cantor letrado,
Mas se me ponho a cantar
Não penso quando parar
E fico velho cantando;
E os versos me vão brotando
Como água em manancial.
Eu sou toro em meu rodeio,
Touraço em rodeio alheio
E jamais tive receio;
E se alguém quiser provar,
Saiam outros a cantar
À sombra do meu ponteio.
Sou gaúcho e entendam bem
Como a minha língua explica
Pra mim a terra é nanica,
Podia ser bem maior,
Nem a víbora me pica,
Nem meu rosto queima o sol.

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Minha glória é viver livre
Como o pássaro no ar,
No chão não vou me aninhar
Onde posso me afligir,
Ninguém vai me perseguir
Quando eu voltar a voar.

(HERNÁNDEZ, José. Martín Fierro. Trad. Walmir Ayala. Rio de Janeiro,
Ediouro, 1991. p.9-11)

Na literatura gauchesca, temos, na prosa, o nome de Domingo
Faustino Sarmiento (1811/1888). Sendo conhecido como um dos mais
célebres adversários de Bello, Sarmiento afirmava que de nada valiam as
informações e formações universitárias se elas não educassem as massas.
É deste pensamento que surge sua obra prima, Facundo (1845), escrita
durante o exílio no Chile. Como seu autor, a obra se propõe definir a
Argentina entre “civilização e barbárie”. No livro, tenta orientar a
Argentina para o desenvolvimento econômico, como o fez durante seu
mandato de presidente da República (1868-1974). E o fez, ainda, nas
outras atividades que desempenhou como mestre, jornalista, governador e
diplomata. Na foto, o personagem histórico Facundo Quiroga

Embora Facundo Quiroga, personagem de Facundo, faça menção a um
personagem histórico, o livro é uma “biografia romanceada”, da qual
saltam cenas consideradas por Bandeira “inesquecíveis”, em virtude do
heroísmo do personagem. Ainda que seja considerado um livro
desorganizado, escrito “ao correr da pena”, Facundo mais uma vez prova
que Sarmiento é um artista da prosa, que escrevia para comunicar e
instruir. E este deveria ser, segundo ele, o objetivo de toda “palavra”:
a instrução.

30

Facundo Quiroga, personagem do livro, representa a vida
Argentina, vivida a través de duas concepções contrárias: a civilização
e a barbárie. Sendo assim, é fácil perceber porque Sarmiento e José
Hernández de certo modo se opõem em suas obras: o primeiro acredita que
ao gaúcho era necessário o aprendizado de técnicas e saberes novos; para
o segundo, a sabedoria popular, o saber campesino era suficiente ao
gaúcho. Os dois escritores, contudo, buscavam, por meio de suas obras,
uma melhor vida para este profissional dos pampas. E foram eles mestres
na arte da escrita e da defesa do povo.

Para complementar o que abordamos nesta aula, sugerimos que você
acesse os seguintes endereços:

??http://pt.wikipedia.org/wiki/Domingo_Faustino_Sarmiento

??http://www.defesa.ufjf.br/fts/PASDFSF

Acesse a Biblioteca da Disciplina , seção Material de Aula, e leia o
texto Recuerdos de provincia: autobiografía y vida pública, de darío
henao restrepo. Tradiciones, de tom costumbrista,9 revela a construção
de uma galeria de quadros vivos e de costumes do passado peruano. As
Tradiciones refletem de modo puro o mundo “criollo” (mestiço). O livro é
para o Peru o que é Facundo para a Argentina: uma obra em que cada país
representado se reconhece.

Afirma Jacques Joset que “os escritores argentinos se definiam
em relação à tirania do Governador Rosas e os cubanos em relação à luta
contra a Espanha” (JOSET, p. 29). Uma das personalidadesmáximas deste
período é o escritor Ricardo Palma (Peru – 1833/1919), que viveu em
pleno romantismo mas o superou encontrando um caminho próprio e
original, sem imitações européias. Com ares sátiro e irônico, sempre
destacou os tipos humanos e sua linguagem.

Considerado grande narrador, escreveu Tradiciones (1872/1893),
no qual recria personagens e lendas da alma popular peruana. No livro,
narra períodos históricos (entre os séculos XV/ XIX) sem observar uma
ordem cronológica progressiva, mas circunstancial. O que tem de
romântico é a escolha do passado como tema.

9 Relato no qual a fala popular é valorizada.

31

Unidade 3

O modernismo hispano-americano

O Modernismo Hispano-americano representa um grande “divisor de
águas” entre a produção considerada “Literatura Colonial” e a
considerada “Literatura Nacional”. Você vai ver também, neste estilo de
época, o destaque da produção literária feminina.

Aula 5

Características estéticas: um encontro com José Martí e Rúben Darío

32

O Modernismo hispano-americano revela uma época histórica e
literária de otimismo e esperança. Iniciado em princípios de 1880, o
Modernismo é considerado o primeiro movimento estético originado na
América. Revela-se como uma tendência intelectual e cultural, resultado
do “desenraizamento” espiritual em face da Europa. Você perceberá que
este movimento mostra a forma literária de um mundo em transformação (o
mundo hispânico) e tem como característica máxima a pluralidade de
traços estéticos (o sincretismo). Tudo envolto em uma tonalidade
aristocrática.

Por volta de 1880, a América Hispânica só havia se libertado
culturalmente pela metade. Em virtude disto os escritores sentem a
necessidade de uma renovação radical e definitiva. Em finais do século
XIX, a libertação político-econômica ainda não é total. Algumas nações
estão mais avançadas que outras, nesta área. Como é o caso do Chile,
México e Venezuela. Mas todas se preparam para sofrer a curto ou longo
prazo as investidas norte-americanas (dos Estados Unidos da América),
que já se apresentam fortes.

A partir do ano de 1914, o conjunto dos países da América
Central encontra-se sob a “proteção” dos Estados Unidos, que recorrem
cada vez mais com intensidade, à força para manter a ordem por eles
imposta na região. Os escritores hispânicos se vêem então (como homens
de ação e de letras) ameaçados pela invasão dos Estados Unidos da
América e de sua cultura anglo-saxônica. É preciso ter em mente que o
Modernismo, esse movimento que se origina na América Hispano-americana,
não é somente uma escola literária. Pois, diante de todas estas novas
investidas por dominação da América, nasce uma atitude intelectual,
marcada tanto na política quanto na literatura de busca de identidade e
autonomia. Uma atitude ampla, que envolve vários aspectos da vida
hispânica e que foi nomeada de “Modernismo”.

Na vida literária, esta atitude é marcada pela participação de
escritores cultos que dialogam com o mundo. Escritores que se recusam a
isolar-se dentro da civilização latino-americana e se abrem ao diálogo
universal. Nasce então uma cultura hispânica “cosmopolita”, voltada para
as cidades do mundo. Mas, com uma característica marcante: este
voltar-se para o mundo visa receber e dar influências. Há um especial
diálogo com a França, pois os ideais literários franceses de fim de
século (“O século das luzes”) coincidem com as aspirações de uma
renovação cultural e artística hispanoamericanas. É a vez então, da
Espanha e outros países receberem lições de estilo10 vindas do “Novo
Mundo”, da nossa América Hispânica.

33

Segundo a prof. Bella Jozef, “o termo modernismo, bastante
controvertido, usado na crítica anglo-americana para referir-se a textos
antiimitativos e anti-realistas, nas literaturas hispânicas designa um
determinado movimento literário. Primeiro movimento estético originado
na América, como signo de seu desenraizamento cultural, surgiu como uma
orientação geral dos espíritos.” (JOZEF, Bella. História da literatura
hispano-americana. P. 11 0 – 111).

Aproveitando o que nos afirma a autora, acrescentamos que,
embora o grupo de escritores que pertence a este período tenha entre si
algumas características em comum, que os reúnem como pertencentes a uma
mesma época literária e social, o mais importante neste momento é a
manifestação da liberdade do poeta. Pois aquele escritor, que antes
utilizava a sua escrita para a libertação do povo e proclamação das
Repúblicas, pode agora buscar “a arte pela arte” e deleitar-se em sua
escrita, tendo em vista que as repúblicas já estão acontecendo, e a
liberdade política da América já é realidade em muitas localidades. E é
exatamente esta independência e força hispânicas que chamam a atenção
dos Estados Unidos da América.

O modernismo caracteriza-se pelo sincretismo estético
(pluralidade de traços estilísticos). Sendo assim combinou o mundo
antigo ao moderno, com tonalidades conformistas e rebeldes; renovadoras
e tradicionalistas. Uma “arte combinatória” (como definiu o escritor
Amado Alonso), unindo elementos de escolas anteriores ou de escolas
literárias que estavam acontecendo em outros locais, na Europa. Diante
desta liberdade de escrita proposta pelo modernismo, é difícil
estabelecer características que determinem como seus seguidores se
manifestam, uma vez que não há normas pré-estabelecidas que todos devam
seguir. Cada escritor utiliza o que mais combina com suas tendências.

Há, entretanto, algumas características que são coincidentes
entre estes escritores: Estas lições de estilo e de vida serão guiadas,
pelo menos, pela atuação de dois escritores considerados expoentes
máximos deste período estético. São eles: José Martí (Cônsul, escritor,
jornalista e poeta cubano – 1853/1895) e Félix Rubén García Sarmiento,
conhecido como Rubén Darío (Diplomata, escritor e poeta nicaragüense –
1867/1916).

??Fim puramente estético: não se busca estabelecer critérios
moralizantes. Buscase a arte, a beleza e o prazer que provém da produção
artística.

??Um forte aristocracismo: o poeta manifesta-se utilizando como
personagens, princesas, ninfas, musas, etc. Os ambientes são luxuosos,
os instrumentos musicais são clássicos (violinos, flautas, harpas, etc.)

??O cosmopolitismo: o intelectual sente-se cidadão do mundo.

??Um escapismo: esta fuga se dá, para o mundo interior do poeta ou
manifesta-se para outras quatro direções: para o passado hispânico, para
a Grécia ou Roma, para o Oriente, ou ainda, para o passado indígena.

10 Estas lições de estilo e de vida serão guiadas, pelo menos, pela
atuação de dois escritores considerados expoentes máximos deste período
estético. São eles: José Martí (Cônsul, escritor, jornalista e poeta
cubano – 1853/1895) e Félix Rubén García Sarmiento, conhecido como Rubén
Darío (Diplomata, escritor e poeta nicaragüense –1867/1916).

34

??Musicalidade como elemento criador de beleza: a música tem importância
fundamental, tanto na seleção de palavras (que lembrem música), como no
ritmo estabelecido dentro poema. Há também o uso freqüente da aliteração
e da repetição.

??Preocupação formal: o poeta quer que sua obra seja bela internamente,
mas deseja expressá-la também no seu exterior.

??Profunda base cultural: o escritor é um conhecedor do mundo, faz
contínuas referências, bíblicas, mitológicas, históricas, geográficas
etc.

??Ênfases sensoriais: manifesta-se principalmente, pela utilização
constante de sinestesias.

??Utilização de símbolos: os simbolistas se utilizam de símbolos, mas
nem todos se valem deles do mesmo modo. Como exemplo, temos o uso das
cores: são muito utilizadas, mas não é possível sistematizá-las, pois
cada autor atribui significação diferente. Algumas cores se repetem,
como o azul (símbolo do modernismo) e o branco (símbolo de beleza e
pureza). O símbolo mais importante é o cisne, considerado um “leit
motiv” da estética modernista hispano-americana. Na literatura francesa,
normalmente o cisne era usado para representar tristeza, desespero. Mas
sua significação muda completamente com os modernistas hispânicos, e
especialmente com Darío. Na escrita deste poeta, o cisne representa o
mensageiro da esperança; é a beleza, a nobreza e o mistério.

Sendo assim, o Modernismo Hispano-americano tem um parentesco
muito próximo com outros movimentos literários. Relacionamos alguns
destes movimentos e as características aproveitadas pelos modernistas:

a) Romantismo - paixão pela morte, liberdade de inspiração,
individualismo, sensibilidade, isolamento contemplativo;

b) Realismo – descrições e observação do real;

c) Simbolismo – exaltação da imaginação, misticismo, teoria das cores,
sinestesia (mistura de sensações), as impressões das coisas, razão
Versus intuição;

d) Parnasianismo – seleção de imagens, ambientes elegantes, seleção
vocabular, refinamento das sensações, a arte pela arte como forma de
refúgio; o interesse pela cultura clássica e pelo exotismo do oriente.

Estas são algumas das características que mais aparecem;
entretanto, há outras. Além também de criar novos princípios estéticos,
como a busca do efeito novo do som, da luz e da cor. Criando ritmos
raros e exóticos para o poema. A conexão de frases segundo a emoção do
poeta. A exaltação da vida espiritual e religiosa, ampliando na escrita
poética a presença do valor simbólico do mistério, através da presença
de mundos ocultos e desconhecidos.

Toda esta mescla de características revelou uma concepção de
arte oposta à objetividade puramente didática e social. Cada escritor
busca, então, uma expressão particular para o seu fazer artístico. A
idéia que prevalece nos modernistas Hispano-americanos é o desejo de
encontrar uma expressão artística cujo sentido fosse genuinamente
americano. Dentro desta liberdade de expressão, que é a marca principal
deste movimento, cada país onde o Modernismo se manifestou, buscou
assumir matizes próprios.

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Sugestão de links sobre o Modernismo hispano-americano:

www.estacio.br/rededeletras/numero13/hablando_portanol/texto1.asp

(Página da Universidade Estácio de Sá sobre o Modernismo
Hispano-americano).

http://pt.wikipedia.org/wiki/Rubén_Darío

(Sobre o escritor Rúben Darío. É imprescindível que você abra este texto
na Internet e leia o seu material).

- Conocer diversas culturas es el medio mejor de libertarse de la
tiranía de alguna de ellas.” (José Martí)

José Martí é considerado um dos mais altos e nobres espíritos
nascidos em “Nossa América”. “Com ânsia inextinguível de amor, acima de
tudo o amor ao homem, o culto e o respeito da dignidade humana, soube
dar o mais puro e complexo de si mesmo, (...) poucos oradores souberam
imprimir o mesmo calor a seus discursos.” (JOZEF. História da literatura
hispano-americana. P.115). Suas palavras resumiam um turbilhão de fé
nacional. De maneira concisa e segura, pregou a independência americana,
tanto literária, como política.

Martí tem sido objeto de inúmeros estudos acadêmicos e é
referência política nos países hispânicos. De família modesta, Martí se
entregou, desde os dezesseis anos, de corpo e alma à causa da liberdade
cubana. Em razão de uma carta particular comprometedora, encontrada pela
polícia entre os papéis de um amigo, foi julgado e condenado à prisão.
Realizou trabalhos forçados em pedreiras, o que definitivamente lhe
prejudicou a saúde. Suas idéias políticas aparecem publicadas pela
primeira vez, em 1869, em jornais clandestinos.

Objetivando a Revolução Cubana, José Martí inaugurou um discurso
no qual o “sentido de nação” e a “luta contra o imperialismo” Norte
Americano se difundem. Foi ele um dos inventores do conceito de “América
latina”. E, segundo o estudioso Octavio Ianni, este conceito resume a
construção de uma problemática política, social e cultural. Martí
começou a desenvolver este conceito de “latinidade”, quando deixou a
Espanha, em 1875, e passou a viver no México, Venezuela e Guatemala. A
convivência com estas pátrias e povos latinos o levou a repugnar, em
definitivo, o legado espanhol sobre a América.

Entre 1881 e 1895, vive em Nova YorK. Trabalha nos jornais The
Hour e The Sun. Em 1882, escreve para o jornal La nación, na Argentina.
Ainda em Nova York, publica seu primeiro livro de poemas, Ismaelillo
(1882), considerado livro precursor do Modernismo. Prosador, introduz
também no ano de 1882, os procedimentos prediletos dos modernistas:
sinestesia, harmonia colorida e metáforas rebuscadas.

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Seus Versos sencillos, publicados em 1891, são exemplos de
musicalidade e imagens plásticas. São exemplos de um regionalismo de
dimensão local e universal. Versos sencillos é um longo poema de amor.
Amor à mulher, ao povo, à pátria, à natureza, à cultura e a humanidade.
É considerado sua maior realização literária. O livro anuncia a
revolução que em mãos de Rubén Darío se propagou por toda a América. O
próprio Darío confessará, por várias vezes, sua dívida para com o Martí
homem e escritor. Neste mesmo ano (1891), publica José Martí no México,
o texto “Nuestra América”, onde expõe o objetivo de seu empenho: propõe
a integração dos povos hispânicos como caminho necessário à integração
continental.

Martí, rejeitava o artificial dos pensamentos importados que
desconsideravam a realidade local. Crítico literário, insubmisso aos
ditames europeus, buscava um desenvolvimento cultural com
características próprias do “novo mundo” e para o “novo mundo”.
Articulista de inúmeros jornais e revistas de Buenos Aires a Nova York,
cônsul do Uruguai, Argentina e do Paraguai, nos Estados Unidos da
América, é autor dos versos que constitui a música “Guantanamera”, uma
das canções mais conhecidas do planeta e que, por muito tempo,
constituiu-se como um hino revolucionário. Considerado o mais universal
dos cubanos, é morto em combate, em maio de 1895, aos 42 anos, quando
regressava para construir uma nova pátria. Cronista de sua época, do
passado e do futuro, nunca deixou de servir o seu povo. Nos últimos anos
de sua vida, teve apenas um objetivo: a libertação de Cuba. Conheceu,
amou e defendeu ao que chamou de “Nuestra América”.

Veja adiante a letra da música (capturada do site abaixo):

http://www.emusic.com/album/Jose%C3%ADto-Fern%C3%A1ndez-Guantanamera-MP3
- Download/10981841.html

O aluno deve visitar os endereços da Internet para saber mais
sobre o escritor José Martí:

37

http://pt.wikipedia.org/wiki/jos%C3%A9_Mart%C3%AD

http://www.ifes.ufrj.br/~ppghis/pdf/jessie_jane_josemarti.pdf

(Excelente artigo! Você não pode deixar de ler!)

http://umbigodolago.blogspot.com/2007/05/jos-mart-o-singelo-vigor-do-ao.
html

(Excelente artigo! Nele você encontra toda a vida literária e política
do escritor José Martí. É preciso Ler!)

www.josemarti.com.br/preguntas1.htm

(Página da “Associação Cultural José Martí” – RS. 300 perguntas e
respostas sobre Cuba.

Explore bastante este link, clique em “José Martí” e veja alguns
pensamentos seus).

www.ensayistas.org/filosofos/cuba/marti/critica/pereira.htm

http://guantanamera.org.br/marti.htm

(nesta página você encontra um “Memorial José Martí”)

Bibliografia de apoio (sobre José Martí):

CÁCERES, Florival. História da América. São Paulo: Moderna, 1980.

MARTÍ, José. Nossa América (Antologia). São Paulo: Hucitec, 1983.

Música “Guantanamera”

Música: Joseíto Fernández (Cuba)

Letra: José Martí (Cuba)

Yo soy un hombre sincero
De donde crece la palma, (2X)
Y antes de morirme quiero
Echar mis versos del alma
Guantanamera, guajira, guantanamera (2X)
Mi verso es de un verde claro

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Y de un carmín encendido (2X)
Mi verso es un ciervo herido
Que busca en el monte amparo
Con los pobres de la tierra
Quiero yo mi suerte echar. (2X)
Porque el arroyo de la sierra
Me complace más que el mar. Guantanamero(a) = diz-se de quem nasce em
Guantánamo, cidade de Cuba;

Guajiro(a)= é o modo como chamam o camponês em Cuba.

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REFERÊNCIAS

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